Verde-água
De uma janela de vidro, uma moça olhava para fora. Toda vez que ela fazia isso, refletia nos olhos a ânsia de quem devora um generoso banquete, depois de longos períodos de penúria. Havia uma razão para tal indício que, embora discreto, parecia dizer muito a uma jovem senhora que costumava observar essa tal moça, da janela do prédio em frente.
Eram prédios vizinhos, daqueles de janelas com esquadrias de alumínio, e com desenhos na fachada, elaborados na década de 70 ou quem sabe até antes. Havia um vão entre eles, uma pequena ruela, de modo que se podia ver as janelas do prédio ao lado. Às vezes era como morar diante de um painel animado. Era possível debruçar-se à janela e observar toda a movimentação dos vizinhos. Seus hábitos, suas manias e até suas loucuras. As paredes eram revestidas de ladrilhos verdes, que lembravam a água do lindo pedaço de mar que aparecia, quando se olhava para o Sul. Era num desses prédios que morava essa moça. Devia ter seus 28 ou 29 anos. Era jovem, mas sua beleza jazia, a maioria do tempo, escondida debaixo de cabelos oleosos e mal penteados. Havia uma razão para isso também. É que a jovem moça da janela triste não tinha mãos.
Ela nem sempre fora assim. Porém, o fato de ter perdido as duas mãos num acidente parecia ter sugado dela toda sua alegria de existir. Não se sabia muito sobre ela. Digo isso baseada em puro palpite. Meu e da senhora do apartamento da frente. A maioria das histórias sobre a moça sem mãos vinha dos cochichos de vizinhos e porteiros do prédio verde-água. Diziam que ela era escritora, jornalista, romancista... Alguns achavam que ela devia ser fotógrafa. Provavelmente pelo número de fotos que se podia ver nas paredes de sua sala. Eram imagens lindíssimas de fato: flores, animais, pedaços de pessoas e outros fragmentos de mundo quaisquer que nem sempre se podia identificar a procedência a “olho nu”.
Ela passava muitas horas olhando para aquelas figuras. A senhora do prédio ao lado às vezes largava seus tricôs, só para dar uma espiada na moça. Era comum vê-la dançando sozinha na sala de casa, sacudindo a cabeça por debaixo dos cabelos desgrenhados. O entregador de jornal dizia que ela já fora campeã de dança de salão. Ela arqueava os braços no ar - os braços sem mãos - e dançava e dançava. A senhora da janela de cá esquecia até dos feijões e das feiras que esperavam por ela. As crianças chegavam, bagunçavam tudo ao redor e ela se ria, debruçada na janela. Ela ria sozinha da moça sem mãos. Pedia perdão a Deus. Pensava que era riso sem maldade.
Muitas vezes era possível ver um homem adentrar o apartamento da moça dançarina. Era um homem de meia-idade, não muito bem-humorado e de olhos frios. Ele usava uma roupa branca e estava levemente acima do peso. A moça escritora dependia dele para tudo, desde comer, até tomar banho, pentear os cabelos, trocar de roupa, escrever. O homem de branco não parecia crer que fosse necessária tamanha dependência. Dava para ler na forma como ele movia os braços. Algumas vezes a senhora de cá ficava de olhos atentos ao homem. Tinha medo que ele maltratasse a moça indefesa. Mas não, ele limitava-se a executar suas tarefas obrigatórias e deixar o apartamento, munido das armas de que precisava para enfrentar o mundo lá fora. A moça sem mãos havia, há muito, perdido o traquejo com que se maneja essas armas.
Às vezes ela dormia na sala. A lâmpada do quarto acordava acesa. Outras, ela comia no quarto e recusava a ajuda do homem de branco. Havia uma certa confusão naquilo tudo. Era curioso observá-la. Em certos dias, conseguia trancar a porta a muito custo e queria almoçar sozinha. Levava muito mais tempo para fazê-lo. Deixava restos de comida no chão, derrubava talheres e copos. Fazia um esforço tremendo até conseguir terminar tudo sozinha. Era como se quisesse sentir de novo como era ter mãos. Por isso mesmo, o homem se irritava com ela. Ralhava. Ou pior ainda, entrava no quarto e a ignorava completamente pelo resto do dia, enquanto limpava as sujeiras causadas por sua teimosia.
Certa vez alguém me disse que quem perde as mãos, continua a senti-las ali, como se estivessem intactas. Imaginei a angústia disso. De sentir suas mãos onde sempre estiveram e não poder fazer quase nada com o que restou delas. Talvez por isso ela nunca dirigisse nenhuma palavra a ninguém além de si mesma. Ficava sonhando acordada com o dia em que teria de volta suas mãos. Passava pequenos filmes de cores vívidas em seus pensamentos. Seria fotógrafa, escultora. Pintaria belíssimos quadros que retratassem a dor de seu passado. Escreveria um romance inteiro, com as mãos que teria de volta. Acariciaria os cabelos de alguém que viesse a sentar ao pé de sua cama.
À parte disso, passava seus dias trancada num silêncio ensurdecedor. Havia música ecoando dentro da cabeça. A moça era compositora. Havia letras que ecoavam a respeito dela mesma e do mundo inteiro. Às vezes sentia que podia falar, cantar e até gritar se quisesse. Às vezes era demais para ela aquilo tudo. Sentia que não podia mais nada. E chorava escondida. Sua existência pulsava como um coração cansado. A moça era cantora. Era artista. Era suja. Era linda. Era louca. O psicólogo do prédio vizinho dizia que a perda das mãos tinha lhe afetado a sanidade.
E a senhora do prédio em frente limitava-se a olhar pela janela. De vez em quando largava as panelas e buscava a silhueta da moça pelas frestas das cortinas. Ela era tão bela. Mas não era só isso. Esta senhora a observara por tanto tempo, que já era possível vislumbrar os traços delicados e finos que saltavam tímidos de seu rosto sempre distante. E ficava cada dia ainda mais bela. Mas parecia ter os olhos cada dia mais e mais longe. Afinal, o que dissera o psicólogo podia ser verdade. Mas talvez fosse este mesmo o maior atrativo da moça: seu aparente estado de “perdição” diante da vida. Era possível até mesmo invejar a moça sem mãos, por seu descompromisso com o mundo real. Ela havia abdicado de todas as obrigações, a ponto de ninguém lembrar mais o que ela era ou fazia antes do acidente. Vivia trancada dentro de seu eu maltratado, remoendo as paixões dilaceradas por sua falta de esperança.
A senhora de cá dialogava em silêncio com a moça sem mãos. Ela sabia do que eu sei e do que você também já deve saber sobre essa moça. É que ela parecia, de algum modo, saber das angústias de sua jovem alma. Parecia beber um pouco da fonte mágica que emanava do corpo esguio da moça triste. E nadava dentro daquele mar de pedra. A luz refletida nos azulejos. Verde-água. E a moça, de braços erguidos, rodopiava pela sala outra vez. A senhora do lado de cá parecia saber, às vezes, da dor dos que perdem as mãos. Afinal, ela também tinha mãos para serem perdidas. Todos têm.
Um dia, em meio às suas danças e rodopios alheios a possíveis olhares, a moça sem mãos parou e fixou seu lindo olhar na janela do apartamento daquela senhora. Era um olhar primitivo, aberto, iluminado. Foi então que, tão repentina quanto inesperadamente, as duas entreolharam-se longamente. Trocaram universos em breves piscares de olhos fúlgidos. Por um momento, as mãos da moça pareciam ter voltado a crescer. E a senhora percebia que as suas pareciam, naquele exato momento, ter se encolhido para dentro dela. Quanta dor havia nisso. Quanta dor. Era um despertar. As duas trocaram de alma naquele instante. Misturaram-se em meio ao reflexo esverdeado dos azulejos do prédio e enxergaram-se como passado e futuro, unidos por um átimo prolongado de silêncio. Entrega, troca, alma, elo. As duas se entreolharam como olhariam para dentro de um espelho. E se espantaram.
Por trás das janelas estarrecidas, o esboço de uma tela imaginária se anunciava dentro dos olhos petrificados das duas. Olhos que quase se confundiam agora com o vidro das janelas cristalinas. Jovens olhos envelhecidos por um instante. Velhos olhos renascidos para uma nova vida! E as mãos. As mãos ali perdidas em algum lugar. E foi só. No dia seguinte, insinuavam-se novos caminhos diante dos pés de cada uma. Dizem que a senhora queimou mais jantares naquele mês e que dançava escondida pela sala de casa. Já a moça sem mãos contratou uma pessoa mais afável e menos branca para lavar-lhe os cabelos e voltou a buscar o que há muito tempo havia deixado de estar procurando.
Enviado
por Mirela Magnani
* 5:26 PM
Teu nome
Anjos caídos. Anjos caídos e desistências.
São estados de espírito dos quais me vanglorio ainda e que escorrem lentos para debaixo dos pés.
Misturam-se à poeira do carpete.
Sinto hoje que vi da vida muito mais do que precisava. Precisava, mas não queria. E vi.
Meu querer permanece sempre esquecido num canto incógnito da casa repleto de apelos ocultos.
Misturam-se cores em gotas de luz, derramadas sobre os peitoris das janelas fechadas.
Fervilha no peito a quase calma de uma insensibilidade clandestina.
Permanece o silêncio da sala vazia, o cheiro da pia cheia, as correspondências alheias por debaixo da porta suja e a escravidão da planta que anoitece calada no canto da varanda.
Mas gosto de sentir essa saudade. Exígua, longínqua. Essa ausência que me é peculiar. Mas ausência de que?
Vou do quarto ao banheiro e do banheiro ao quarto sem perceber. Esbarro-me comigo no corredor.
Trocamos perplexidades, fronteiras, gêneros e números. Simbiose.
Sublimam-se em silêncio um punhado de serpentes sinuosas em nuvens de volúpia velha e vermelha. E goteja veneno da garganta mofada.
O ar pesado que respiro parece vir da caixa de memórias, pulsando no quarto dos fundos. Brotam dali auroras boreais cravadas em pupilas imaginárias e melodias de incerteza. Borbulham no corredor burburinhos fingidos em notas graves e cinzentas. E compaixão. A fronteiriça porta da sala é a muralha que separa o delírio de dentro das vozes alheias de fora. Mas não quero mais falar sobre isso. Viro então a página da palavra dobrada à esquina e finjo que condeno as sobras ensandecidas de mim ao cárcere eterno do silêncio.
Já disse que não quero mais falar sobre isso. Antes prefiro andar de um lado a outro da casa e esquecer porque sequer dei o primeiro passo. Prefiro o som de meus próprios calcanhares na alteridade de um corredor forçosamente familiar; ou então não dar passo algum e adoecer da cabeça. Mas isso pouco importa. Já escuto o dissolver dos possíveis caminhos em finos grãos de esquecimento. Alimento então minha lucidez com os farelos frios de sandice que sorriem encostados ao rodapé. E adormeço. Sim, os relógios evidenciam a imensa farsa dessa frígida fuga. São testemunhas e despertam ainda. Seus braços conduzem-me ainda a despertares indesejados. São cúmplices de meu crime solitário os prazos que se insinuam nas telas do amanhecer e os ponteiros que zelam por mim, velam meu sono e suturam os sangramentos eventuais. Ponteiros que pontuam também a clandestinidade das linhas que me cortam os pulsos por dentro. Voluntária ambigüidade. Ruptura. Anuncia-se na madrugada uma ânsia previsível em forma de vertigem e os raios tímidos do amanhecer que se anuncia revelam votos de falaciosos celibatos. Contradição. O cerne da langorosa língua tatua, na umidade imaginária da janela, uma inútil promessa de resguardo, enquanto falsos filetes de sangue alargam as valas vermelhas da pele entreaberta. Delírio. E fome! Nuvens enormes de recaída regam fabianas em carne viva. E ali floresce a face feliz da mais evidente das evidências: Teu nome.
Não sei porque ainda te escrevo. Deve ser porque estou farta de encher sozinha as taças tilintantes de meu sofrer. E é por isso que te digo que sou vencida. Sou. Inválidos pretéritos! São corpos largados à beira da estrada, cascas abandonadas da lagarta a trocar de peles, folhas secas que recobrem o passeio úmido. Mas onde é que eu estava? Estou. É fato. Mas ainda? Não sei mais. E soube alguma vez? Medo. Movem-se, do lado de dentro, verdadeiras avalanches de pavor, entupindo as artérias aflitas. Premonição. São as ondas do desejo que me encharcam os olhos desadormecidos. Mas eu nem sabia disso. Enxergo-te ainda através da cortina de águas que me queima as retinas inflamadas. E sinto o retumbar de outro refluxo. Vejo um presságio de reincidência comprimir-se pelas frestas da janela trancada. Eis a evidência. Revela-se no ar um semblante de sorriso seco. Reencontro. Tenho as tripas então reviradas pela quentura íntima do sol a pino. Mas ainda não amanheceu. Grita no fundo dos olhos o brilho de uma tola insistência e a luz oleosa da melancolia das tardes. Engodo eterno. Retorno. Entrega e estorno.
Hoje sou isso. Essa rendição da tenra carne dos sonhos às facas afiadas do destino. Sou a metáfora velha, o anjo caído. Vencido. Inválido. O retinir redundante da moeda falsa atirada à secura de um poço de desejos. Sou o eco do que já fui um dia, um invólucro esvaziado e cru. Sou o ventre recém parido da crueldade, a mãe que espera pela filha que não virá, o filósofo em busca da tese perdida, o cientista à procura da folha de cálculos, rabiscando guardanapos na mesa de jantar, o cadáver corroído pela idéia de inexistir. Só. Insisto. Mas para que? Inútil espera! Então traço num triste pedaço de papel o esboço de uma ponte. Pegadas leves e cálidas percorrem o branco da folha. Miragem que se desfaz diante do relance do reflexo no espelho da cômoda. Revelo-me. Lateja por debaixo das ancas um maremoto de ilusões assassinadas e a inquietude dos demônios de Dante. Entrego minhas utopias à escuridão do quarto, em forma de um punhado de pseudo-eloqüências e bonitezas. Escondo-me. Não. Não existem métodos na minha loucura. Seu pulsar passageiro é tão breve quanto o de qualquer outra coisa que vive e respira. Sim. Minha loucura respira. Ela é o elo e o veículo, o olhar além do porvir, o abrir da janela, a lacuna entre as intermitências da vida. Desisto? Apenas sei que aspiro agora o mundo profundamente, pelos poros das pálpebras cerradas, e que devolvo devaneios em forma de letras descendentes, atiradas aos pés descalços de um labirinto de incompletas escadas.
Enviado
por Mirela Magnani
* 11:31 PM
A sombra
Tinha os olhos voltados para baixo de vez em quando e fitava de relance as coisas e pessoas em volta. O bar era sombrio, porém bastante vívido. Era o que se via na superfície. Havia um tom de amarelo em todos os cantos. Aquela era uma noite amarela. Magia e luz, por entre as frestas emadeiradas das janelas. Farpas marrons microscópicas cortavam feixes de amarelo que resplandeciam no ambiente. Apenas uma pessoa enxergava o contraste e pensava na hospitalidade desleal da vida para com as coisas que parecem vir do além. Mas além de que? Para onde? Para que? É desleal porque muda de acordo com as estações do ano. Talvez seja com as fases da lua. Isso também não nos cabe saber.
Ao mesmo tempo, estas coisas que vêm do além são as primeiras que desejamos abraçar de encontro ao peito. Acredito que venham daí as oscilações periódicas dessa tal hospitalidade: a busca, o encantamento, o acolhimento, a rejeição. Sempre há o fechamento de um ciclo. Mais um. É dessas coisas que cansam. Ainda assim prosseguimos, sorvendo os ares diversos da vida que resta em nossos conta-gotas existenciais. Persistimos através de cada dia que escapa no átimo de vinte e quatro horas. Seguimos arfando, afundados na irritante intermitência entre saber e desconhecer, entre trevas e luz. Bendizer? Maldizer? Oscilação. Sim. Sempre urgente, como todas as urgências da alma. Afinal, o coração não costuma suportar eventuais esperas. É só o que se pode afirmar.
Quanto há de brevidade num segundo? Resta-me esta dúvida agora. Mais este momento de desequilíbrio. Outro, dentre muitos que haverão. Enfrenta-lo-ei. Sim. Forçando a perna pesadíssima em direção ao passo seguinte. Que venham comigo. Quem quer que seja! Caso contrário, sou capaz de me perder aqui de novo. Ó bela idolatrada mãe de meus pensares! Claríssima mãe. Iluminada flor de Lis. Tu deste luz a este âmago tão pobre e adormecido por tanto tempo. Não lhe citarei o nome por mais esta vez. É de tua pessoa que me lembro, não importa por quais terras longínquas passeiem meus anseios mal apessoados.
Mas voltemos, meu Deus! Retorno, enfim. Substantivo ou verbo? Retorno. É preciso. Assim como preciso manter estes teus olhos aqui grudados à página. Insaciáveis, sedentos, finitos. Necessito beijar tua alma através destas linhas pobres e esforçar-me para voltar à tentativa do passo que ainda não dei. O passo seguinte, o encontro com o desconhecido. As pernas hesitam. O sangue borbulha. Tenho uma febre falsificada. Tenho vontades obsessivas de contar o tempo, de contabilizar todas coisas, as bordas das janelas, os pisos, as paredes. O ponteiro do relógio me impele quase que irrefreavelmente a fazer coisas. Um, dois, três segundos, terceiros e quartos. Todos nomeados tão inutilmente quanto as letras tristes sobre esta folha de papel. Mas que seria de mim sem estas simbologias? Que seria de nós?
E ela estava naquele bar. A pessoa de quem falei há pouco. Já nem eu mesma me lembrava dela. Nem saberia dizer se era homem ou mulher. Alguma coisa me impede de querer saber. Por outro lado, sei que há indícios escritos sobre ela. Possibilidades. Especulações. Pele, cabelos, roupas, postura, olhos... Decidi ignorá-los. Nenhum deles tem coisa alguma de ignóbil, porém descobri que, certas vezes, não me dizem absolutamente nada. E será que dirão algum dia? Pergunto-me. Existem coisas maiores. E ela olhava e olhava e esperava. Mas esperava pelo que?
Algumas vezes respirava diferente. Apenas o garçom percebia. Calado, continuava servindo cores e sabores sobre sua bandeja de metal. Guilhotina. As vozes das pessoas em volta iam crescendo, crescendo, crescendo... E cada vez que se sentia irritada, sua fisionomia parecia triste. Estendia as mãos e sentia torcer o estômago. Às vezes as mantinha dobradas sobre as pernas cruzadas. Rodopiava o aro do anel no dedo. E a angústia crescia. Barulho, drinks, disputas, vulgaridade... Tudo parecia uma grande reprise enfadonha.
À parte disso, carregava uma enchente de paixões dentro de si. Estava claro que bastaria um leve sopro na altura de seus olhos para desencadear uma explosão de luz e doçura. Coisa que não se poderia comprar em lugar algum. Mas não. Os ventos sussurravam agora em outras direções. Os tempos eram outros. E continuariam a ser. Tanto neste momento especificamente, quanto em outros de circunstâncias repetidas. Invariavelmente. Existem coisas que nunca mudam. E doem...
Era o abandono que lhe sorria por entre os dentes das pessoas, a indiferença, o esquecimento. Eram os lados opacos do cosmo que se lhe mostravam nas orelhas dos livros e nas cascas do vegetais. Ela ainda se demorou um bocado ali, sorvendo goles de cappuccino de sua xícara. Até que resolveu afinal levantar-se. Decisão. Caminhou calmamente até o banheiro feminino. Sei que deve haver injustiça nesta minha escolha repentina, porém decidi que esta pessoa seria mulher. Ela é mulher. Mas o que é justiça afinal? Existem outras coisas que nunca doem. E mudam...
Ela desloca-se sorrateira e ninguém da mesa falsamente vívida nota sua ausência. Ela já não passa agora de uma lacuna. Uma chuva de amarelo ilumina o salão emadeirado. Amarelo ouro. As vozes vão ficando pequenas e murchando até uma quase surdez de seus sentidos frágeis. Os sentidos são sempre tão quebráveis... E é justamente por causa deles que ela percebe que está viva. É possível enxergar a pulsação purpúrea de uma veia sobre seu pulso triste. Mas isso também não importa, já que ela agora caminha vagarosamente até a solidão. Abre a porta e sente um cheiro de flores que vem de baixo. É desinfetante. Há uma pequena garrafa esquecida no chão. A nuvem de odor floral encobre a podridão ocultada naquele recinto azulejado. A luz branca faz o piso parecer mais branco. Branco que lhe arde nos olhos avermelhados.
- Perdi-me aqui neste banheiro - Pensa no auge do que parecia um desespero momentâneo e pergunta-se sobre qual seria a "causa mãe" daquele "sentir" absurdo.
Ela percebe agora, mais do que nunca, que existe dentro daquele recinto. Obviedade? Mas as coisas mais grandiosas estão, muitas vezes, contidas em folhas de guardanapo. Sim, ela sabe disso. E sabe muito mais. Sabe tanto quanto qualquer outro que tenha veias pulsando sob as peles cansadas. Ela sabe muito. Sabe até mesmo que o branco lhe incomoda os olhos. E mais que isso: Sabe que o branco lhe agride a naturalidade. Por isso, ela resolve fugir um pouco, criar, transcender a normalidade, desarrumar as coisas ao redor. O branco nunca lhe foi suficiente. É preciso desorganizar.
Lenta e involuntariamente, as paredes do banheiro vão se fixando dentro de seus olhos humanos, como as imagens formadas dentro de uma câmara fotográfica. As imagens tatuam-se dentro deles, imprimem-se sobre o papel branco da alma multicolorida. Contraste. As cores de dentro fundindo-se às cores de fora. Afinal, o branco por trás da fotografia nunca é tão branco quanto se pensa. Ela sente sede de compartilhar o silêncio deste delírio, porém sabe que certas coisas acontecem para serem ímpares e impartilháveis. Mas será? Perguntamo-nos. Eu e ela. Cada uma de nós coexistindo paralela. Ela quer fugir. Sim. Quer pensar melhor e entender o que se passa do lado de dentro, quer desfazer a névoa de cores borradas que se formou sobre seus olhos. O dedo no interruptor foi o caminho mais curto encontrado naquele instante. A luz artificial então se apaga.
Escuridão. Pânico inicial. Desconforto. Respiração ofegante. Inspira, expira. O ar vai saindo cada vez mais denso e entrando cada vez mais pesado. Os pulmões trabalham envenenados pelas ondas fortes de adrenalina. O coração bombeia sangue suficiente para que ela levante vôo, carregando as pontas dos cinco continentes nas mãos. Porém ela sabe que isso também é uma mentira, um pequeno engodo fisiológico. Fantasia na qual ela gostaria de acreditar. Desesperadamente, ela tenta se acalmar, apaziguar suas glândulas e evitar as reações "metálicas" de seu corpo, envolto na sombra do medo. O que ela sentia naquele momento era medo da morte. Um medo irracional.
Porém, ainda assim, resolveu enfrentar o banheiro escuro. Gradualmente, seus olhos começam a se acostumar à nova realidade e seu pânico inicial vai se dissolvendo, enquanto ela se encontra com o silêncio puro da escuridão. Sua respiração começa a estabilizar aos poucos e ela se deixa estar ali por alguns segundos. Fica escutando o ar entrando em suas narinas. Procura sentir a textura de tudo. A textualidade das coisas. O suor lhe desenha riscos molhados sobre a maquiagem do rosto. Sim, a escuridão parece lhe trazer de volta à sua essência, arrastar-lhe para um encontro com a origem primária de todas as coisas. Não demora até que sua cabeça se transforme num mar de confabulações silenciosas:
- O que é que mantém as moléculas de meu corpo mais unidas que as daquela poça d'água derramada debaixo da pia? O que será mesmo que dispersa as partículas desse cheiro floral entrando em minhas narinas? Por vezes entristece-me saber que se a construção ao meu redor desmoronasse agora, as moléculas do perfume floral não fariam mais sentido algum para mim, pois eu já não teria nariz...
Aos poucos, confronta-se com toda a sua impotente imaturidade. Apercebe-se, naquele momento, de sua insignificância diante das coisas e martiriza-se calada pela dor de descobrir-se "adolescente". Ou seria criança? São difíceis essas classificações. Ela percebe que quanto mais deseja se fazer um monstro mitológico diante dos olhos do mundo, mais se aproxima de sua essência infantil. Ela descobriu-se, antes de qualquer coisa, criança. Carrega um espelho imaginário diante da face. O reflexo da alma é o de uma criança.
- Mas as pessoas lá fora não sabem...
Ela pensa, de repente, que o mundo deveria saber.
- Sim, o mundo deveria saber! Mas talvez o mundo já saiba...
Esta menina, esta mulher sabe disso também, e sente-se ainda mais criança, encolhendo-se para dentro de si. Mais e mais e mais... Sente-se impotente como uma criança tímida no parque de diversões. Não há uma mão para levá-la aos seus brinquedos preferidos. Outras crianças lhe passam a frente, pisoteando-lhe o coração quieto. A luz amarela entra por debaixo da porta do banheiro. A escuridão já não é tão segura agora. O dourado vulgar escorre iluminando seus sapatos aveludados. É inverno. Os azulejos tristes sorriem melodias celestiais. Azul. Um azul que não se enxerga na escuridão. Azul contido na íris desesperada, azul do frio que traz a solidão. Mais uma vez, contraste. Calmamente, esta mulher de quem falo, repousa suas mãos infantis sobre a louça da pia.
- Como posso sentir-me tão pequena? - pergunta-se - Talvez por saber que o mundo lá fora já sabe de mim. Sim, eles sabem que não passo de uma criança inepta e imatura. E sabem que estou perdida há minutos dentro deste banheiro de bar...
Ela descobre que esta é mais uma das peças que nos pregam os "atos" da vida. Em todos os sentidos. Naquele minuto, ela era criança. No minuto seguinte, estavam sós ela e o desespero. Ele colado ao aço velho do espelho do banheiro; ela ao chão que quase lhe absorvia a sanidade. Ela sente tremer de leve os joelhos. Sente seu reflexo imaginário descolar-se de dentro da retina, neste breve e misterioso instante. Calafrio. A imagem manifesta-se diante de seus olhos estupefatos: De dentro da sombra do pesadelo funesto, pintado ao centro da moldura de madeira, "ascende" a luz senil da dura realidade...
Enviado
por Mirela Magnani
* 2:54 PM
A caixa
Foi pega numa tarde quente de Janeiro. Estava indo à casa de uma amiga. Usava um par de sapatos novos e andava pela rua como andam os desavisados, os delirantes. Sentia tudo: o vento batendo no cabelo, o barulho das folhas rodopiando na calçada, o cheiro da grama molhada no canteiro central. Atravessou a avenida larga em direção a uma rua calada. Eram três horas da tarde quando aconteceu.
Um carro, aparentemente suicida, invadiu a calçada. O pânico lhe secou a garganta num segundo. Era um garoto de cabelos compridos quem dirigia. Ele tinha uns olhos atormentados, um ar de perdido e era rápido. O grito estridente de sua vítima feminina morreu na demora de menos que um instante. O garoto tinha força nas mãos. Apertava um lenço azul contra o rosto convulsivo da moça. O pacote que ela carregava despencou da mão direita na calçada abandonada. De repente, escuridão.
Acordou dentro do tal carro. Não percebia muito além de imagens borradas diante dos olhos, confusão mental, e um som estridente que parecia vir de um aparelho de som. O hematoma no olho esquerdo da moça denunciava a intenção. Ele dirigia sem olhar para o lado. Trazia uma certa dose de loucura nos olhos, além de uma altivez infundada e enervante, impressa nos gestos rasos. Isso tudo lhe parecia familiar.
O carro voa agora pelo asfalto desgastado da cidade indiferente. Viajo no tempo para encontrá-los na inexatidão deste momento. Mas o que é o tempo afinal? Ela está algemada ao banco do carro. Percebe que mal consegue mover as mãos. Está drogada com alguma substância que não a deixa pronunciar as palavras borbulhantes em sua boca. Ela tenta fixar o olhar nele, mas os olhos parecem escorrer involuntários dentro das órbitas. Ainda assim, de dentro da ebulição deste instante confuso, ela parece ter decifrado o enigma:
- É ele. - Pensou.
É o novo fantasma que assombra seus piores pesadelos, o feiticeiro mal sucedido, o redemoinho ambulante de caos, o garoto com a arma debaixo do banco, a criança desvairada com força de adulto assassino. É ele. É a mentira que ela escolheu velar por tempo indeterminado. Ele é o que ela pensava que um dia poderia ser amor. Mas ele não sabe disso. Ele não sabe nada. Ele não quer saber de nada. Ele é nada e o revólver escondido em seu bolso se chama controle. Ele é o monstro que imprevisivelmente resolveu mostrar o rosto à sua maneira:
- Você daria um belo troféu para minha coleção... - Ele diz olhando o asfalto e coçando o rosto com o cano do revólver - mas você é muito burra, sabe? Preciso calar a tua boca de uma vez por todas... você fala demais e isso me irrita. É sempre tão fácil te achar, que isso me irrita.
Só aí pôde reconhecer de fato aquela voz. É o mesmo timbre que a hipnotiza e atormenta desde Agosto passado. É a mesma reverberação que se espalha por milhares de lugares diferentes; o rosto que assume novas formas a cada nova desilusão. Ela percebe que estão no caminho da praia. Esprirais invisíveis de ar salgado acariciam a pele frágil debaixo do nariz. Cheiro de contraste, de antítese mórbida. A praia é o lugar preferido dela. Costumava representar tudo o que, até aquele momento, lhe trazia alguma paz.
Guinada para a esquerda. O carro parou. A frente está apontada na direção do caminho de volta. Ele desce do carro um pouco perturbado e acende um cigarro. Apanha uma pá no porta-malas. Já é quase noite agora. Começa a cavar lentamente um buraco na areia cor de pérola. Entre um trago e outro, ele assovia uma canção conhecida, em meio às baforadas embrigadas de êxtase homicida. Algumas vezes olha para ela por cima dos ombros largos e solta pequenos sorrisos assimétricos. Seus olhos parecem refletir as nuvens de uma tempestade eletromagnética:
- "I say: No... I´m gonna kill my dog..."
Ela tenta gritar, mas está dopada demais para isso, seus gritos escorrem estômago adentro. A fumaça do cigarro forma desenhos sombrios no ar. Desenhos que não existem. Ela escuta vozes ao pé dos ouvidos. Está delirando, tentando fugir dali, criando mundos paralelos para si. Imagina-se dançando na chuva, sentada numa praça distante, com lápis e papel no colo. Imagina-se nos braços do homem que nunca existiu, da sombra que se escondia em seus sonhos embaçados. Vislumbra miragens de salvação e reflete na íris uma aura verdeada de esperança. Divaga. Só desperta de seu delírio com o barulho de uma caixa de madeira sendo arrastada até a borda do buraco. Sente-se como o poeta traído pela própria musa:
- Hora de dizer adeus... - Diz o rosto malévolo reluzindo na prata da noite.
Toda ilusão tem seu lado mau. E esta noite ela o encontrou. Ele abre a fechadura das algemas e a leva no colo até a caixa. A cabeça pende para trás, os cabelos escorrem pelos braços dele. Algumas nuvens esparsas anunciam a chegada da noite. Púrpura e escarlate. Ele a coloca no fundo da caixa de madeira. Os olhos fixos da bela mulher suplicam calados por um milagre. Ela já não é nada além de um passarinho indefeso na mão do menino cruel. Ele põe a mão por trás de seu pescoço macio e aproxima o rosto da pele dela:
- Um último beijo para lembrar do teu gosto.
Mesmo imersa em desespero, ela ainda se entrega ao sabor daqueles lábios envenenados. São cremosos, seguros e quentes. Deliciosa redundância romântica. Ela então se dilata inteira, como a veia aliviada de um viciado. Sente o descanso de um doente terminal, no instante entre a dor extrema e o excesso de morfina. Seu fôlego estala preso na garganta. O amargo limiar da dor iminente faz brotar de seus olhos lentos uma primeira lágrima silenciosa.
O beijo será a única lembrança, mentirosamente boa, que vai restar na solidão da caixa fria. Ele deita cuidosamente a cabeça de sua vítima passional na madeira seca, dá-lhe um beijo frívolo na testa e fecha a tampa de madeira, lacrando-a com quatro pregos. Ela conta dolorosamente, cada estalido das marteladas. Incredulidade. Ele arrasta a caixa até a cova rasa e a joga lá dentro.
Por alguma razão, ele não teve coragem de enterrá-la. Preferiu deixá-la ali, sozinha, para ser devorada pelos bichos da noite, encontrada por algum louco pior que ele ou ainda para morrer de inanição. Ela escuta as rodas do carro roçarem no asfalto. Ele está indo embora. Incúria. E ela consegue ver um pedaço do céu através das falhas na tampa de madeira. As estrelas continuam lá, mas a negritude da noite desta vez desespera. Talvez a lua escute seus apelos telepáticos. Sim, a lua deve saber muito. Persiste ainda, no interior da caixa, o som dos galopes de seu coração.
Fervilha o pavor dentro da caixa. Ela tem medo de passar o efeito do anestésico, do minuto que virá depois de agora e do seguinte. Não terá forças para destampar a caixa. Sabe disso. E a poesia das constelações insiste em chover para dentro dos olhos que ainda vivem tanto. Deve ser sarcasmo do destino. Estica as pontas dos dedos para cravá-los na falha da tampa de madeira. Sente a maresia que passa suave por ali, numa tentativa improfícua de roubar um pouco da essência da noite lá fora, um pouco do gosto da liberdade que lhe falta.
Angustia-lhe a prisão de sua alma no escuro daquela caixa, a inevitabilidade do fim, a incapacidade. Não consegue sequer escrever novas linhas nas derradeiras páginas de sua vida. Foi deixada ali para morrer. Em todos os sentidos atribuíveis a essa palavra. Nem coragem de matá-la ele teve. Uma bala cravada no meio da testa teria sido mais justa. Resta-lhe agora respirar e esperar. Inspirar angústia e expirar cansaço à espera da salvação que não virá.
Enviado
por Mirela Magnani
* 3:58 AM
O rosto
Está chovendo forte. Muito, muito forte. E eu aqui, sentado neste banco sujo e molhado. As gotas se despedaçam sobre mim. A música que brota da chuva transporta-me para um outro universo. Está escuro. A tarde se foi sem que eu pudesse ao menos perceber. Trovões, muitos trovões. São os ecos malditos de amores passados, as vozes famintas que me tragam para debaixo da terra ávida.
Ela. É somente nela que consigo pensar, somente naqueles cabelos sobre minha pele, naquela boca sob minha carne. Ela. Tormenta, tormenta eterna. Nova queda. Pedido de socorro. Estou caindo! Estou caindo! Preciso da mão que me abandonou, dos olhos que me fugiram, da boca que nem sequer pude beijar. Ai, angústia de existir. Ai, como queimas dentro da fogueira de meu peito nu. Bela, bela, eternamente bela! Maldita e bela. Amada e escarnecida mulher. Ou seria menina?
Só sei que ela agora me rasga e me apaga com uma inevitabilidade ultrajantemente irritante. Não posso sequer escrever uma linha frívola. Não consigo sequer mover os cílios para lubrificar minha vista. As lágrimas descem tão rápidas, que não há tempo para molhar meus olhos estarrecidos. Quero chamá-la de volta. Sou criança sem riso, amor com juízo, sou desperdício. As palavras em minha cabeça parecem repetidas. Sou isto: Um buraco oco, repleto de mim mesmo; sou como um poeta que encontrou a si mesmo, como um espelho quebrado. Sou o retalho miúdo da antiga veste de um rei. Sou nada!
Ai, menina, moça, mulher! Miúda, melindrosa, maldita! Quantos ais me transbordam da alma por ti. Pergunto-me mil vezes quem és e nada encontro. Quem és tu mulher? Quem é a menina dentro de ti? Quem é a bruxa com ares de moça e olhos de velha? Quem é? A única coisa que sei é que restei aqui, nesta tarde que já virou noite e que me consome as peles e os cabelos. A umidade da chuva nem sequer é capaz de penetrar as células que me compõem. Sinto isto: Que estou impermeável.
E chove. Chove muito. Não escuto nada além dos limites de mim. Mas descobri que não tenho limites. Não sei o que fazer comigo neste exato momento. Não sei que canto buscar, para que olhos olhar, nem que pensamentos gerar. Não sei nada! Quero chorar e não consigo. Sou criança, meu Deus, sou criança. Quero limites para mim! Preciso de algo que me console, que cale esta minha medusa interna. Que vão enorme debaixo de meus pés! Que medo intenso de cair, meu Deus! Mas eu já estou caído. Só não sei o que faço agora com isso.
Preciso-te. Preciso de ti. Seja você quem for. Fique onde está e me siga até o final destas linhas. Preciso-te eternamente. Meu eu, meu ontem, meu hoje, meu amanhã! Preciso-te. Mas quem és tu? Eu não saberia ordenar todos os "quês" e os "mas" que borbulham em possíveis respostas dentro de mim. Eu não poderia. Não sei nem ao menos quem sou eu. E lembrei-me novamente que não tenho fronteiras. Horror, meu Deus, horror! Extremo e absoluto. Segura minha mão neste momento. Perdi minha eira, minha beira, meu equilíbrio.
Chuva ainda. Muita chuva. Escrevo um soneto imaginário às águas que me ensurdecem. Só agora percebi que estou surdo também, como a moça que me deixou há pouco. Estou surdo e impermeável. Também não sei o que fazer dessas minhas descobertas. Queria dá-las a alguém. Pedir que as levem daqui, por obséquio, e que façam rápido, antes que eu enlouqueça.
Ah, Erasmo segura minha mão tu também. Revira-te em tua tumba escura. Derrama um pingo de luz sobre estes olhos espantados. Envia-me uma pequena ode à amiga loucura. Salva-me! O soneto molhado flutua agora sob minhas carnes, apodera-se de meus nervos expostos. Não posso sequer mover as mãos e molhei meu papel nesta chuva maldita. As letras então disputam espaço em minha fraca memória. Sinto o sabor da reviravolta contida nestes versos que não me pertencem. Metamorfose.
Ah, chuva amiga e bendita! Mudei de idéia a teu respeito. Tornaste-me inerte sob teu feitiço malévolo. Adoro-te por isso! Trazes em tuas partículas o confronto e o conforto. Bela chuva! Linda e brilhante! Estou caindo e dentro deste meu momento de queda não escuto mais nada. Apenas grito veloz e sozinho sob o temporal. Não escuto sequer minha própria voz. Estou caindo e tenho o corpo parado debaixo dessa enxurrada gritante. Estou irremediavelmente paralisado.
Sinto-me como um feto dentro do ventre materno. As vibrações das vozes externas me confortam. Não sei o que elas tanto lutam para me dizer. Eu apenas sinto um tremer mudo de peles que suavemente me embala. A voz, a música, as moléculas de som abafado adentrando meus ouvidos entupidos, são os acalantos da criança surda que virei neste momento. Eu até já compreendo melhor a fuga que me arrebatou no meio desta tarde, pois vejo, refletida em mim, a surdez fugidia da mulher que desejei.
Foi quando me apareceu um rosto misterioso, diante de meus olhos confusos. Agora, ontem, amanhã? Que me importa? Sei apenas que ecoa em mim a idéia de que ele apareceu. E de que aqui está, a sorrir para mim. É um rosto que me olha sereno e magro. Um rosto magro. É o rosto de uma mulher, presa num semblante de homem. É ele. É ela. Sou eu? Amor. Amei de novo. Posso dizer que sim.
Já consigo prever a chegada da desgraça finita. Sinto uma espécie de esquecimento passado e de apelo presente. Falsa indiferença. É isso o que me habita na inexatidão de mais esta hora. Diante disso, tomei a decisão: Sorrio de volta. Sim, eu quero esta mulher para mim e está escuro. Mas ele não é mulher. Posso ver a boca se movendo dentro das sombras que nos rodeiam. Não escuto nada. Sinto que meus olhos se perdem dentro dos dela. Sorrio à toa. Lindo rosto de alma feminina. Lindo!
Se eu ao menos pudesse escutar o que o rosto me diz, mas não posso. Contento-me em resignar-me sob este meu silêncio novo, em anotar cada sílaba contida nos gestos que ele deixa escapar de si. Apenas espero pela volta da audição perdida. Silêncio. Silêncio eterno e peso. Inércia. Espera. Perda do controle. Vertigem. Queda. Estou caindo. É só o que sei. Sinto agora um vento gélido cortar meu rosto imóvel. Sinto o impacto íntimo e a invasão de uma dor que me é familiar. Tenho gosto de lama em minha boca ferida. Sim, caí. Provei da verdura molhada na grama suja do parque. Tenho areia nos dentes.
Caí de uma altura cujas dimensões ainda desconheço por puro esquecimento, ou por preguiça de calculá-las simplesmente. Sou preguiçoso de fato. Admito. O que sei agora é que despenquei do alto de mim mesmo e que estou surdo. Sei que me faço redundante por mais esta vez. Não me importa. A redundãncia também é necessária. Descobri que minha surdez e a embriaguez da chuva amorteceram minha imensa queda. Estou entorpecido de nada.
Mas eu já sabia que estava caído, ora bolas! Não deveria espantar-me tanto essa idéia. Explico-me. É que, de tempos em tempos, costumam apossar-se de mim estas sensações recorrentes. O que me aconteceu agora foi que senti minha queda outra vez. Foi isso.
Começo a prestar mais atenção ao novo rosto que me olha. Vejo que ele revela uma certa estranheza nos traços. Encara-me com um misto sutil de paixão e deboche. Delimito-me ali dentro e me arrebata uma ilusória sensação de paz. O corpo de homem gesticula andrógino diante de mim. A bela voz endereça-me notas doces e calmas. Ela é linda! A coisa mais linda que já vi na vida. E esta é a única coisa que consigo pensar agora. Descobri que estou confortável assim: Não pensando. Ah, amado, idolatrado Caeiro! Carrego-te cravado nas profundezas de meu peito.
Eis então que desperto, vagarosamente, de mais este delírio. Não mais que de repente. No mesmo átimo dentro do qual se faz, inexplicavelmente, o desencanto. Sinto meu corpo formigando e tenho dúvida. Sintomas do despertar. As interrogações se expandem dentro de minhas veias gordas e abarrotadas. Acordei. Demorei a perceber que há um carro parado atrás do rosto que me olha. Não pude vê-lo chegando e só agora notei que sua encantadora silhueta saiu de dentro do tal carro. Verde. Verde escuro acinzentado. Pode-se ver uma quimera acorrentada à janela traseira. Mas isso não importa. É só mais um de meus símbolos decifráveis, que ninguém se dará ao trabalho de ler, além de mim mesmo.
O que importa é que, sem querer, a vibração daquela voz de homem feminino ensinou-me que ser surdo está doendo menos. Falo sem parar. Mal consigo perceber o quanto. Falam minhas mãos, meus olhos, minha pele, meu cabelo, minhas imperfeições. Tudo fala a respeito de tudo. Minhas partes tagarelam por mim e as vozes que saem delas ecoam no nada. Estão fora de meu controle. Também não escuto o que me falam as partes do misterioso rosto. Prefiro enxergá-lo sozinho e sem dores. O rosto desta bela mulher em forma de homem. É mais fácil desse jeito. Mas apesar da benção de minha surdez recém-chegada, descubro neste breve encontro uma nova impossibilidade. Sinto que o destino acaba de me sorrir outra despedida.
Não foi a chuva desta vez. É que existe amor demais no fundo daqueles olhos tranqüilos. Eu já devia saber. Consigo ver uma coisa grandiosa brilhando ali. Esta mulher, florescendo vívida neste rosto de homem, é amada. Mais amada do que eu jamais poderia amá-la. Mais amada do que eu jamais saberia ser. Sinto que ela percebe que sei do que ela talvez nem saiba e despede-se de mim então, segura e morna. É o fim.
Sua boca balbucia uma frase vazia qualquer e abandona-me lentamente na escuridão do parque. Vejo-me sozinho mais uma vez. Resignação. Viro-me na direção oposta à do rosto e retribuo, com um punhado de sílabas, a frase que não escutei. Percebo que as palavras de meu adeus talvez nunca consigam chegar àqueles ouvidos desatentos. Despontam no horizonte os primeiros raios amarelos da lua, por entre as nuvens da chuva fina que se desfaz.
Enviado
por Mirela Magnani
* 2:36 AM